Jadeilson Feitosa e Milena
Pitambeira protagonizam En Passant 
Não,
não se trata de uma apreciação do masoquismo,
muito pelo contrário. Desconforto aqui é uma
condição psicológica, o primeiro requisito
para os questionamentos, as reflexões. Todo conformismo
é confortável, passivo e sempre pouco criativo. Mas
as ousadias são incômodas e, quando tecidas com
talento, prazerosas. Ousada é a peça En Passant, com
o texto de Rafael Martins, que atinge o poético sem deixar
de ser espontâneo na dramaturgia. Os dois atores, Jadeilson
Feitosa e Milena Pitombeira, marcam os diálogos - reticentes
e cíclicos - por fragmentos de riso, choro ou gestos de
perplexidade. As falas, durante o enredo, tornam-se
cambiáveis, denunciando a impotência das palavras que
não conseguem jamais definir uma existência.
Percebe-se muito do sentimento do absurdo, do mergulho clariceano
em todas as seqüências - e, simbolicamente, deparamos
com a dimensão de um "vazio" que agiganta as possibilidades
interpretativas. En Passant traz a sensação de frio e
solidão, mas paradoxalmente faz rir e sugere acolhida. As
personagens assumem uma atmosfera de antiguidade, em que os
detalhes vermelhos do figurino - que tem a excelência autoral
de Yuri Yamamoto - parecem ser a única marca de vitalidade.
Essa energia sangüínea já incomoda e é
desconfortável, porque induz à reflexão,
à simbologia. Existe ainda uma proposta do caricato, pela
lembrança do traço de Tim Burton no desenho dos
balanços, do poste e na própria imagem esguia e
pálida da atriz Milena. Tal resgate, que nasce associado
à memória de universos infantis (ainda que com seus
instantes mórbidos, que o mesmo Tim Burton também
apresenta), não parece se ajustar completamente aos
personagens, envelhecidos com precocidade. Esse desajuste, da mesma
forma, traz desconforto. Talvez o maior componente
metafórico da peça seja o cachecol vermelho,
absurdamente longo, que inicialmente pertence ao personagem
masculino, mas aos poucos vai servindo de elo, manipulado
também pela figura da mulher. As dobraduras e os enlaces
assumem discretas coreografias, pulsando em silêncio enquanto
as cenas se recortam entre black-outs. Os personagens evoluem,
assim enlaçados, como dois lados de uma mesma personalidade,
que ocasionalmente se monta, reconhecida em espelho. É o que
acontece no beijo, trocado não porque se trata de um casal
em cena, um homem e uma mulher que se tornam íntimos. O
beijo é muito mais uma relação de reflexo - os
lábios se unem como se uniriam as mãos, as palmas
coladas na superfície da imagem narcísica. As duas
figuras, de passagem, instabilizam-se, como instável
é o tempo, contado somente por madrugadas, em
alternâncias de luz: outro desconforto. O cachecol, como
símbolo, transforma-se na própria malha do discurso,
na tessitura das palavras; é o que resta na praça
ausente, quando tudo termina. Como uma estátua que se
erguiria em homenagem aos dois personagens, o cachecol é o
que fica - e sua lã é o conforto, o aconchego,
afinal. Não é à toa que na estréia de
En Passant cada pessoa da platéia recebeu um mini-cachecol
vermelho, que alguns fizeram de pulseira, enquanto outros amarraram
no cabelo... Os fios da arte, os mistérios de Ariadne
estavam todos lá, em labirintos de silêncio. Só
quem não se incomodou foi que deixou de perceber.
SERVIÇO En Passant. Estréia hoje, às 20 horas,
no Teatro Sesc Emiliano Queiroz. Em cartaz aos sábados e
domingos de março, no mesmo horário. Ingressos: R$ 12
(inteira) e R$ 6 (meia). Outras informações: (85)
3452 9066 e 3452 9000. Tércia Montenegro é escritora
e já teve vários de seus contos encenados pelo grupo
Cabauêba de Teatro
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