” Foi na
paróquia de Navalmorales. Seguraram o padre: —
“Estás preso, velhinho”. O ancião
suspira: — “Seja o que Deus quiser”. Outro
miliciano (eram milicianos) pergunta: — “Estás
com medo, padre?”. Responde: — “Quero sofrer pelo
Cristo”. Os milicianos riam, sem nenhuma maldade. Batiam nas
costas do sacerdote: — “Pois morrerás como
Cristo”. Em seguida, disseram: — “Tira a roupa,
amigo. Ou tens vergonha?”. — Olha as caras que o
cercam: — “Tudo?”. E os outros: —
“Tudo”. O padre vai-se despindo. E, de repente,
pára. Pergunta, súplice: —
“Basta?”. O chefe diz, e não isento de
doçura: “Eu disse tudo”. E tirou tudo.
Alguém faz o comentário: — “Como tu
és magro, hem, velho?”. De fato, o ancião era
um esqueleto com um leve, diáfano revestimento de pele. Foi
açoitado furiosamente. Perguntaram: —
“Não choras, padre?”. Arquejou: —
“Estou chorando”. As lágrimas caíam-lhe,
de quatro em quatro. Por fim, os homens cansaram-se de bater.
Resmungavam: — “O velho não grita, não
geme”. Houve um momento em que um dos milicianos teve uma
dúvida: — “Padre, vamos fazer um trato.
Blasfemas e serás perdoado”. Responde: —
“Sou eu quem os perdoa e abençoa!”. E repetiu:
— “Quero sofrer como o Cristo”. Os milicianos se
juntam, num canto, e discutem. Como matar o padre, eis a
questão. Um deles voltou: — “Padre, vamos te
crucificar”. Estende as duas mãos crispadas: —
“Obrigado, obrigado”. Mas três ou quatro
milicianos esbravejavam: — “Vamos acabar com
isso!”. Realmente, fazer uma cruz dava trabalho. A maioria
optou pelo fuzilamento: — “Fuzila-se e pronto!”.
Puxaram o padre nu: — “Vamos te fuzilar. Anda” .
o velho tinha um último pedido: — “Quero ser
fuzilado de frente para vocês. Pelo amor de Deus. De frente
para vocês”. E repetia: — “Quero morrer
abençoando vocês”. Atracou-se a um miliciano,
escorregou ao longo de seu corpo, abraçou-se às suas
pernas; soluçava: — “De frente para vocês,
de frente, de frente, de frente!”. Levou seus últimos
cachações terrenos: — “Sai pra lá,
velho!”. Ficou de frente. Quando viu os fuzis apontados,
esganiçou-se: — “Eu perdôo vocês! Eu
abençôo vocês! Eu amo vocês, amo, amo,
amo”. Os milicianos atiraram. Um tiro na cara, outro no
peito, outro no ventre, outro não sei onde. E ficou,
lá, horas, varado de balas, aquele cadáver tão
magro e tão nu. Aí está um episódio da
Guerra Civil Espanhola. Iguais a esse, e piores do que esse, ainda
mais hediondos, houve milhares, houve milhões. De parte a
parte acontecia tudo. Matava-se, violava-se, enforcava-se,
sangrava-se sem nenhum ódio e, até, sem nenhuma
irritação. O padre de Navalmorales teria escapado se
tivesse dito um palavrão contra Deus ou contra a Virgem
Maria. E sairia com vida e ninguém lhe tocaria num fio de
cabelo. Contei o episódio do sacerdote e proponho ao leitor:
— façamos de conta que isso vai acontecer no Brasil
dos nossos dias. Não é mais a Guerra Civil Espanhola,
nem Espanha, nem Navalmorales. É a Guerra Civil Brasileira.
A toda hora e em, toda parte, brasileiros fazem apelos à
Guerra Civil. Há muita gente interessada em que os
brasileiros bebam o sangue uns dos outros. E vamos admitir que,
tão solicitada, tão sonhada, a Guerra Civil venha a
explodir no Brasil. Sei que estou, aqui, sugerindo uma fantasia
cruel. Mas vamos lá. Tiremos de cena os milicianos. Somos
agora nós, brasileiros, cariocas, paulistas, gaúchos,
pernambucanos ou lá o que seja, quem prende um padre bem
velhinho como o de Navalmorales. Vejo um nosso patrício
rosnando: — “Velho, fica nu, velho!”. Algum
leitor há de pedir: “Licença para um
aparte?”. Respondo: — “Pois não”. E
o leitor, enfático: — “Mas nós somos
brasileiros!”. Ledo engano. Ou, por outra: — nós
somos brasileiros, sim, mas os espanhóis também eram
espanhóis. E os americanos eram americanos, e os franceses
eram franceses, e os chineses eram chineses. Mas aqui começa
o pavoroso mistério da condição humana. Quando
um povo chega à Guerra Civil ninguém é mais
brasileiro, ninguém é mais francês,
ninguém é mais americano ou cubano. Cada qual
é o anti-homem, a antipessoa, o anticristo, o antitudo.
Nós ouvimos falar em Guernica. Pelo amor de Deus, não
sejamos cínicos. Na Guerra Civil, cada lado faz uma Guernica
em cima do outro lado. São massas de canalhas contra massas
de canalhas. Cada uma das nossas inocentes passeatas propõe
Cuba, propõe Vietnã, propõe a matança
espanhola, propõe a linha chinesa etc. etc. E isso sem
nenhuma sutileza, da maneira mais límpida, líquida,
taxativa. As passeatas picham os muros confessando suas
intenções. Até há bem pouco, a
história tinha-nos feito o favor de não testar a
nossa crueldade. Eu próprio escrevi, certa vez, com certa
humilhação de subdesenvolvido: — “Nunca
tivemos um vampiro”. Mas vejo muita gente querendo beber
sangue como groselha. E já o mito da nossa bondade
começa a ruir. Em São Paulo, massacraram um oficial
americano porque era americano. A vítima estava com o filho,
um garotinho. O filho foi testemunha auditiva e ocular do
fuzilamento do pai. E quem fez esse crime, de uma irracionalidade
apavorante, não foi chinês, nem espanhol, nem
tirolês; foi brasileiro. Portanto, convém desconfiar
dos nossos bons sentimentos. Mas voltemos à história
que o aparte do leitor interrompeu. O padre velhinho, de oitenta
anos ou mais, está nu. A dez passos, ou quinze, estamos
nós, de fuzil apontado. Vejam bem: — nós
— brasileiros, torcedores do Flamengo, do Fluminense, do
Botafogo, do Vasco massacrando um velhinho, magro, santo e nu.
Queremos sangue. O brasileiro tem suas trevas interiores.
Convém não provocá-las. Ninguém sabe o
que existe lá dentro. Sim, ninguém sonha com as
fúrias que estão por baixo das trevas, A partir do
momento em que se instala o terrorismo no Brasil, tudo o mais
é possível. E nós, brasileiros, estamos
brincando com a nossa irracionalidade. Ainda domingo li um
espantoso editorial sobre o assassinato do oficial americano.
Lá está dito que foi obra da direita. Meu Deus,
deixamos de raciocinar. As esquerdas levam anos promovendo, aos
urros, o seu ódio aos Estados Unidos. E vem um jornal e diz
que foi a direita a assassina. Ninguém entende mais nada e
nem há nada para entender. Mas não vou acabar sem
referir um outro episódio da Guerra Civil Espanhola.
Prenderam uma freira que, por infelicidade, era mocinha. Se tivesse
85 anos, seria apenas fuzilada. Mas, repito, era mocinha. Um
miliciano pergunta-lhe: — “Queres casar comigo?”.
Não quis. E, então, ele tomou-lhe o rosário e
enfiou-lhe no ouvido as contas do rosário. Em seguida,
bateu-lhe na orelha com a mão aberta, até
rebentar-lhe os tímpanos. Ato contínuo, fez o mesmo
na outra orelha. E, por fim, a violou. Transfiram o mesmo fato para
o Brasil dos nossos dias. As nossas classes dominantes estão
encantadas com a letra de Vandré. Há grã-finas
que a cantam, deliciadas, como se cada qual fosse a própria
“Passionaria”. É uma pose, claro, mas uma pose
pode comprometer ao infinito. Em caso de Guerra Civil, prendem a
capa de Manchete. Um sujeito pergunta: — “Queres casar
comigo?”. Não. O revolucionário faz o seguinte:
— enfia-lhe pedrinhas no ouvido. Depois dá murros na
orelha. Os tímpanos explodem. Faz o mesmo na outra orelha. E
depois, depois. Paro aqui. [16/10/1968] In Rodrigues, Nelson. A
cabra vadia: novas confissões. São Paulo: Cia das
Letras, 1995, p. 281.
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