E o
espetáculo PÃO COM MORTADELA - Indicado ao
Prêmio Shell de Melhor Direção - volta em
cartaz no dia 21 de março de 2008, na Casa da Gávea
(Pça Santos Dumont 116/sobrado, Gávea) - 6as e
sábs às 21h, dom às 20h. Texto: Charles
Bukowski Direção: João Fonseca.
Adaptação: João Fonseca e Sacha Bali. Elenco:
Aline Fanju, Gustavo Nunes, Lívia de Bueno, Jorge Lucas,
Rosanna Viegas e Sacha Bali. Jefferson Lessa, O GLOBO: LINDA
VITÓRIA DA PAIXÃO SOBRE A MEDIOCRIDADE Quando morreu,
em 1994, aos 74 anos, Henry Charles Bukowski Junior era conhecido
pela singela alcunha de Velho Safado (Nasty Old Man). O apelido,
acreditem, não poderia ser mais carinhoso. Bukowski havia
conquistado o direito de ser chamado assim por conta das muitas
décadas de bebedeiras, sexo a torto e a direito e
empreguinhos desgraçados – enfim, as chamadas agruras
da vida – que moldaram seu caráter, sua imagem e,
claro, sua prosa. DIREÇÃO DE JOÃO FONSECA
É APAIXONADA E CRIATIVA Em 1982, ele escreveu “Ham on
Rye”, em que narra, através de seu alter ego, Henry
(“Hank) Chinaski, suas infância e adolescência
terríveis. Detalhe: Bukowski declarou que este foi seu livro
mais difícil. Aqui, “Ham on Rye” virou a
peça “Pão com Mortadela”, em cartaz
só até domingo na sala Multiuso do Espaço
Sesc, em Copacabana. Para começar, é muito boa a
idéia de transformar “Misto Quente” em
”Pão com Mortadela”. Tem mais a ver com o
universo retratado no palco. A idéia partiu do diretor
João Fonseca, que adaptou o texto com o ator Sacha Bali,
estrela do espetáculo. (sim, “Pão com
Mortadela” pode e deve ser chamado de espetáculo).
Apenas seis atores (Aline Fanju, Gustavo Nunes, Jorge Lucas,
Lívia de Bueno, Rosanna Viegas e, claro, Sacha Bali)
interpretam vários personagens da vida de Henry Chinaski.
Seria injustiça destacar este ou aquele, pois todos
estão ótimos. Mas vale a pena destacar a
direção criativa – e nitidamente apaixonada
– de João Fonseca, que cria quadros com
pouquíssimos elementos. O cenário lindo de
Natália lana se resume a alguns móveis, garrafas que
pendem sobre o aplco e painéis com trechos do texto escritos
à mão. Além de lindo, prático e
inteligente, é valorizado epla iluminação de
Luis Paulo Neném e Daniela Sanches. Os figurinos, em tons de
bege e branco, são polivalentes. Uma calça se
transforma em bermuda om o uso de botões estrategicamente
colocados. Palmas para Nello Marrese. ESPETÁCULO FOGE DA
MEDIOCRIDADE DA FORMA Num espetáculo com tantos acertos,
talvez o único deslize é, talvez, o resultado da
paixão que envolveu a montagem. Uns 15 minutos a
menosornariam “Pão com Mortadela”
irresistível. Não se trata de uma vulgar
questão de cansaço pela longa duração,
mas de agilidade; algumas cenas são redundantes. Já
foi dito, em alguma cena anterior, que Bukowski preferia a
solidão. Em alguns momentos, a peça parece chover no
molhado. Isso porém, não chega nem perto de
embaçar o brilho de um espetáculo tão bonito e
vigoroso. Comovente. Mil vezes um erro causado pela paixão
do que os acertos banais atingidos através da mediocridade
certinha que segue fórmulas. O homenageado poderia
até fazer cara de mal, mas certamente aprovaria a
homenagem.
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