3) Grande Otelo
73,8% dos votos Tinha 1,50 m de altura, os olhos esbugalhados e os
lábios espichados de bebê chorão. Nunca
haverá um tipo popular e divertido igual a Grande Otelo.
Além de um comediante imcomparável, que formou dupla
com Oscarito em dezenas de filmes na época áurea das
chanchadas e comédias da praça Tiradentes e do
Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, Otelo era também um ator
dramático de autenticidade visceral. Embora fosse festejado
por platéias populares, foi adotado nos anos 60 pelo cinema
novo e encarnou Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de
Andrade, personagem que ele jurou ter ajudado o escritor paulistano
Mário de Andrade a construir. Nos anos 20 , quando integrava
a Companhia Negra de Revistas, cujo maestro era Pixinguinha, Otelo
garantiu ter visto na platéia o escritor. "Tenho certeza que
ele botou muito reparo no negrinho que rebolava e acho que inspirei
o homem a criar Macunaíma, o herói sem nenhum
caráter." Nunca se saberá ao certo. Sebastião
Bernardes de Souza Prata, nascido em 18 de outubro de 1915, em
Uberlândia (MG), estreou no picadeiro. O circo precisava de
um garoto para contracenar com o palhaço. "Eu me apresentei
fantasiado de mulher grávida, com um travesseiro na frente e
outro atrás, por baixo das roupas. Só esqueceram de
me avisar que havia tiros na cena. Quando ouvi os estampidos, fugi
apavorado. A platéia caiu na gargalhada e o pessoal do circo
me chamou para repetir no dia seguinte." Negrinho fujão
Quando o pai morreu esfaqueado e a mãe - cozinheira que
trabalhava com um copo de cachaça ao lado do fogão -
casou outra vez, ele aproveitou a visita de uma companhia de teatro
mambembe a Uberlândia para escapulir. A diretora do grupo,
Abigail Parecis, o adotou "de papel passado" e o levou para
São Paulo. Em seu novo lar, tinha a tarefa de levar a filha
de dona Abigail às aulas de piano. Mas Otelo fugiu de novo
e, após várias entradas e saídas no Juizado de
Menores, foi adotado, mais uma vez, pela família de
Antônio de Queiroz, político influente da
época. Dona Eugênia, mulher de Queiroz, tinha ido ao
Juizado atrás de uma garota que a ajudasse na cozinha. O
administrador do albergue sugeriu que levasse o negrinho
fujão que sabia declamar, dançar e fazer
graça. Os Queiroz o colocaram no Colégio Sagrado
Coração de Jesus de padres salesianos, onde estudou
até a terceira série ginasial. "Tive com eles do bom
e do melhor. Mas, para comprar vinho e pastel de ambulantes, passei
a vender os volumes da vastíssima biblioteca do meu
padrinho. Também comprava ioiô, que era moda naquele
tempo." A família adotiva sonhava em transformá-lo em
advogado, mas Otelo bateu pé: ia ser artista. Em 1932,
entrou para a Companhia Jardel Jércolis (pai do ator Jardel
Filho e um dos pioneiros do teatro de revista), quando ganhou o
apelido que o consagrou. Os amigos o chamavam Pequeno Otelo, por
razões óbvias, mas ele preferiu o pseudônimo
The Great Othelo, em inglês mesmo, que já era moda na
época. Depois traduziu para o português. Em 1942,
participou de It's all true, filme realizado por Orson Welles no
Brasil. Em Fitzcarraldo (1982), do alemão Werner Herzog,
filmado na selva, no Peru, quase enlouqueceu o ator Klaus Kinski,
que tinha o ego do tamanho da Amazônia. Otelo precisava fazer
uma cena em inglês, mas resolveu falar em espanhol, idioma
que Kinski desconhecia. Irado, Kinski retirou-se do set. Quando o
filme estreou na Alemanha, aquela foi a única cena aplaudida
pelo público, contou depois o diretor Herzog. Otelo morreu
em 1993 de um ataque do coração, em Paris, a caminho
de uma homenagem que receberia no Festival de Nantes. Sem ele, o
País perdeu graça e vivacidade. VOCÊ SABIA? Uma
tragédia familiar abalou as filmagens de Carnaval no fogo: a
mulher de Otelo matou o filho do casal de seis anos e suicidou-se.
Otelo filmou a cena em que fazia o papel de Julieta e Oscarito o de
Romeu sem saber de nada. Abalado, afastou-se da fita e só
assistiu à cena quase 30 depois. EM CENA · O
petróleo é nosso (1948) teatro · It's all true
(1942) cinema · Moleque tião (1943) cinema ·
Rio zona norte (1957) cinema · Macunaíma (1969)
cinema
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