* "Todo ator é um sentimental. Do contrário não seria ator. A gente tem de ser um doido, um sentimental, um idealista. Se não for assim, não poderá ser um bom ator". - Em entrevista à Revista Veja, em fevereiro de 1973
Grande Otelo em picadinhos
Durante anos, Grande Otelo foi garoto-propaganda - um garoto já passado em anos - das Óticas do Povo, uma gigante do setor que até hoje pratica o que se convencionou chamar de "preços populares". Protagonizou inúmeros comerciais de rádio e televisão para divulgar a rede de lojas, os quais, invariavelmente, terminavam com o famoso jargão que se tornou uma marca - "Óticas do Povo, morou?" - dito com incrível malícia e poder de persuasão. A frase era seguida de risada diabólica (Rá-rái-ííí). Para muitos, principalmente os que estão na faixa dos 30 anos, essa é a imagem que ficou do grande ator, morto em 1993. Em Grande Otelo: uma biografia, de Sérgio Cabral, a história ganha um registro de quatro linhas. Menor, portanto, que o espaço destinado a ela nesta abertura de texto. É o bom do livro, e é o mau do livro. O levantamento de informações é fabuloso e exaustivo - afinal, Cabral contou, para elaborar o trabalho, com a descoberta do arquivo pessoal de Sebastião Bernardes de Souza Prata. Mas tantos detalhes passam num piscar de olhos, e, ao fim e ao cabo das mais de 300 páginas, não se tem uma imagem completa e fechada do biografado. Ele está em picadinhos. Compilado, não biografado. Muitos em um só Certo que Grande Otelo não é um só; são muitos. Em sua época, seria taxado de multimídia, se esta palavrinha feia então existisse. E, como já se disse, tudo está no livro: da infância pobre em Uberabinha, em Minas, quando já cantava em troca de uns cobres, aos sucessos no Cassino da Urca, nos shows de Carlos Machado, nas chanchadas da Atlântica ao lado de Oscarito, nos filmes-cabeça do Cinema Novo, nas novelas globais. Sem faltar os muitos porres, as fases de maré baixa, os dramas pessoais, a urucubaca. Sérgio Cabral abre a narrativa em 1957 e informa que, naquele ano, foram lançados seis filmes com a participação de Grande Otelo: Metido a bacana, Brasiliana, Baronesa transviada, Rio, Zona Norte, De pernas pro ar e Com jeito, vai. Segue o autor lembrando o espetáculo Mister Samba, realizado na boate Night and Day, no Centro do Rio, o qual, para contar a vida e obra de Ary Barroso, trazia Grande Otelo e Elizete Cardoso como estrelas. Um dia, quando ia cantar o verso "boneca de pixe/ da cor do azeviche", Otelo calou a boca e começou a vomitar. Um médico que estava na platéia o socorreu. Descobrimos que este é conterrâneo do ator, apenas dois anos mais velho. Pelas lembranças dele, voltamos no tempo, para que se permita contar toda a história desde o início. É uma boa técnica para fisgar o leitor, e ainda traz a private joke de reunir, na mesma situação, dois outros biografados de Cabral: Elizete e Ary, que ele, por considerar que "a língua não pode ser submissa ao arbítrio dos cartórios", grafa Elisete e Ari. Alcoolismo Homem de letras - e também de samba - tarimbado, Sérgio Cabral, pai, é autor de outras biografias de nomes importantes da música brasileira (Almirante, Pixinguinha, Tom Jobim, Nara Leão). A respeito de Otelo, conta-nos que começou a beber ainda menino de calças curtas e que seu alcoolismo poderia ter um componente hereditário: a mãe, a cozinheira Maria Abadia, mantinha sempre uma garrafa próxima ao fogão. Ela mandava o filho abastecer o estoque no armazém e, no caminho, ele provava os primeiros goles. O capítulo mais decepcionante é o que narra o encontro de Otelo com Orson Welles, durante a famosa passagem do cineasta pelo Brasil, em 1942, da qual não resultou o não menos famoso filme It´s all true. Tudo que está dito ali já estamos carecas de saber: que, ao ser apresentado àquele homenzarrão que era considerado um gênio do cinema, Otelo, do alto de seu metro e meio, disse apenas "alô"; que os dois, mais o compositor Herivelto Martins, ficavam até de madrugada bebendo cerveja preta nos bares da Praça Tiradentes; que o patrão americano, mesmo depois da farra, exigia o cumprimento do horário de início das filmagens: "Tomorrow, eight o´clock"; que Orson considerava Otelo também um gênio, comparável, em sua comicidade, a Chaplin e Mickey Rooney; e que o ator, até o fim da vida, nunca escondeu a decepção com o amigo: "Sou um gênio, mas ele nunca me chamou para trabalhar". Se a leitura motivar o leitor a procurar, na locadora mais próxima, o filme Amei um bicheiro, terá valido a pena. Otelo está mais nesse filme que no livro. P.S. - Rá-rái-ííí. E também não ficamos sabendo se Otelo, ao menos, ganhou um bom dindim com aquela propaganda. [ 29/12/2007 ]
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