GRANDES NOMES-TIM MAIA

Entrevista com Tim Maia

 



Quem tem fama, deita na cama. Eu tinha quase a certeza de que ele nem chegaria, como fez em muitos shows dele, ou chegaria uma ou duas horas atrasadíssimo. Mas Tim Maia surpreendentemente chegou na hora, como um vulcão em erupção e me cumprimentou com aquele vozeirão de trovão afinado que cantor algum jamais terá. Como uma de suas bebidas preferidas era o whisky, resolvi presenteá-lo com uma garrafa de Chivas Regal 12 anos, que ele próprio se encarregou de esvaziar durante nossa conversa. Estávamos num barzinho, eu e ele, ele e eu, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, último bairro onde ele morou, e chegou com uma camisa de seda, azul da cor do céu. 

- Tim, que prazer... pensei que você não viesse!
- Ah, você também tá me chamando de furão como todo mundo?(finge falar agressivamente) Mas mesmo quando eu estava na terra eu já havia mudado muito, rapaz... creio que ainda lá eu paguei todos os shows que eu devia. Realmente deixei de ir a muitos shows, bicho, sempre tive uns probleminhas de última hora, mas a galera exagerava bastante nesse lance d'eu furar. Mas entrava o lance de processo, etc., então tive que me policiar mais quanto a isso. Todo mundo gosta de dizer que sou furão, o que ninguém fala é que ficaram me devendo em shows que eu fiz, né? Lá em casa tava cheio de chequinho-borracha. Me deram cano em muita grana, um total de quase meio milhão, bicho!


- Teve um show em São Paulo que você faltou e o organizador disse que "já que o Tim Maia não vem, pessoal, vou colocar uns discos dele aqui e vocês dançam, que tal?" E não é que o pessoal aprovou!
- Ah, interessante (rindo)! Mas essa época passou mesmo quando eu ainda estava em vida. A própria Sandra de Sá falou que tinha gente que se frustrava quando eu ia (ri muito).


- Mas você deu cano até no Noites Cariocas do Nélson Motta, Tim?
- Ah, cara, não tava a fim de subir aquele bondinho não, sempre tive medo de altura! Teve uma hora que foram me buscar em casa, atrasadíssimo, a galera quase quebrando tudo lá, quando eu falei pro Nelsinho "Olha Nelsinho, como sou teu amigo eu vou fazer o show sim, mas pede pro pessoal descer que eu canto aqui na praça mesmo." (risos) Acabei subindo e fui deitado no bondinho.


- Durante os shows você reclamava muito da parte técnica, né?
- Ah, reclamava sim, sempre fui muito exigente, mesmo porque também era perfeccionista, então exigia que tudo fosse impecável para dar aquele show. Assim era também para gravar.


- Tim, você sempre foi gordo?
- Ah, rapaz, desde moleque. Sempre comi muito doce, cara, muita besteira, refrigerante, etc. Isso é um vício também, e nem conseguia perder peso nos shows! Geralmente nos shows você pode reparar quanto artista perde peso, a Ivete Sangalo então... ela nem precisa malhar! Mas claro que eu não me movimentava como ela (risos). Eu continuava a mesma coisa.


- Mais de cem quilos?
- Mais! Uns cento e trinta e sete, por aí. Às vezes perdia um quilo, ganhava, ficava com mais um quilo(risos). Mas minha base sempre foi essa.


- Você nem tentou emagrecer?
- Claro, bicho! Cheguei até a ir numa clínica, que vocês chamam hoje em dia de "spa", não é mesmo? Parecia mesmo "espa" de esparadrapo na boca! Começaram a me dar suquinhos, reclamei que a comida era pouca e aí fugi da clínica com a roupa do corpo, não aguentei nem um mês! Aí parei um táxi na rua e pedi pra me levar na churrascaria mais próxima. Em duas semanas perdi 14 dias! (risos)


- Você só queria chocolate, hein? E junto com vício da comida, as drogas?
- Pô, cara, nunca fumei, nem cheirei, nem bebi, só mentia um pouquinho!(risos) Briguei muito com as pessoas, algumas delas muito legais, por causa dessas "mentiras" aí. Mas prefiro a mentira do que a demagogia, sabe? Eu saía do meu normal, viajava. 


- Eu, particularmente me lembro de um momento inesquecivel na minha vida. Eu estava nesse mesmo bar há muitos anos, onde estamos agora. Conversava numa mesa com um amigo na parte externa e lá dentro devia ter um casal. Madrugada de sábado pra domingo...
- Sempre gostei dessa hora.


- De repente surge sua figura, como uma miragem e perguntou com sua voz retumbante "Já vai fechar???" O garçom respondeu com um fiozinho de voz que "sim, senhor..."
- Aí você pensou "ih, Tim Maia chegou, lá vem confusão..."


- Exatamente! Mas acho que você devia estar num momento legal e comprou uma garrafa de bebida e uma caixa de bombons, acho.
- Meus vícios preferidos! (risos)


- Surpreendentemente você começou a cantar no silêncio da madrugada do Recreio dos Bandeirantes, estilo capela, e todos ficamos entre atônitos e maravilhados.
- Tim Maia era assim, bicho! Surpreendente em qualquer lugar! (risos)


- Você morou nos Estados Unidos, não?
- Morei sim, cinco anos, fui pra lá em 1959. Fiquei muito tempo sem falar uma palavra em português, pois lá não havia brasileiros. Fui lá que eu comecei a cantar e até gravei um compacto com uma bandinha que eu tinha lá.


- Bem antes disso, menino, ainda como Sebastião Rodrigues Maia, você ganhava a vida entregando marmitas, né?
- Entregava marmitas, meu apelido era "Tião Marmiteiro", não gostava muito disso, mesmo assim fazia, lá na Tijuca, na Rua Afonso Pena, onde eu nasci. Só que eu, moleque, ia pra rua entregar as marmitas, cruzava com uma pelada e largava elas e ia pra bola. Às vezes abria uma, tirava um bolinho de carne (risos), eu vivia com fome, cara! O pessoal do Erasmo Carlos, que também era da Tijuca, pedia marmita na pensão dos meus pais. Viviam ligando pra lá reclamando que a comida não chegava, demorava. Uma história engraçada era que o Erasmo, que tinha um ano a mais que eu, resolveu checar e chegando na praça onde a pelada rolava, me pegou no flagrante sentado e comendo a comida que tinha nas marmitas. Ele me deu uma bronca, dizendo que eu estava comendo a comida que era dele também, e aí a gente caiu na porrada. Eu era menor mas não me intimidei. Nosso primeiro encontro foi essa maravilha que você tá ouvindo (ri bastante).


- Olha Tim, acho que a gente vai ficar um bom tempo aqui. Como você mesmo diz na introdução da belíssima "Azul da Cor do Mar", na sua voz fantástica "Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho muito pra contar..."
- Verdade, cara. Acho que contribuí bastante para a música popular brasileira. Minha trajetória antes da fama também é interessante, mas o que importa para mim, e acho, para outras pessoas, é minha carreira musical.


- Mesmo porque você tinha um repertório diversificado.
- Sim, eu gostava de blues, baladas, soul, funk - não essas coisas que tem por aí que chamam de "funkão", digo o funk da música negra norteamericana. Então fiquei feliz por poder incorporar isso num som bem brasileiro, dar uma contribuição rica pra nossa música. Em cada disco meu não tem mesmice, é um som rico, diversificado.


- E você acha que teve o reconhecimento à altura de seu talento em sua trajetória na nossa música?
- Por parte dos fãs sim, por grande parte da imprensa não. No meu tempo só tinha o "Prêmio Sharp". Não que eu seja ligado nesse lance de prêmios, mas não deixa de ser um incentivo para os músicos, pena que grande parte da imprensa só pensa em pichar. Esses críticos então são todos uns músicos frustrados - "Já que eu não consegui entrar para a música, vou bagunçar, pichar" - é assim que eles pensam, se acham os donos da verdade. Os donos da verdade são os fãs, o público, que te apóia nos shows, comprando seus cds, com o carinho e tudo mais. Eu fui muito perseguido pelo "Jornal O Globo". 


- Voltando ao início de tudo...
- (Tim me interrompe) Meu pai me deu um violão quando eu tinha 12 anos de idade e me colocou para aprender música. Com oito anos de idade já cantava. Cantava no Coral da Igreja dos Capuchinhos, na Tijuca. Fiquei muito feliz quando o Frei Cassiano mandou comprar uma bateria novinha, bicho! Cantava nos festivais do colégio, quermesses, festinhas, e fiz um conjunto "Os Tijucanos do Ritmo" e depois o "Sputinik", onde Roberto Carlos tocava também, ele já tinha vindo de Cachoeiro de Itapemerim nessa época para tentar viver de música. O Roberto também falava inglês então fazia o vocal às vezes. Na Tijuca ele conheceu o Erasmo e o resto é a história deles. Os Sputiniks até fizeram uma aparição breve na televisão, mas logo depois o grupo se desfez. Foi mais ou menos na época que meu velho faleceu, Seu Altivo Maia, que Deus o tenha em bom lugar. Eu tinha 15 anos. Logo em seguida fiz meus planos para ir para os Estados Unidos. Chegando lá, não sabia falar inglês e o motorista de táxi acabou me levando pro Brooklin, eu com apenas doze dólares no bolso. Na verdade eu fui pra lá pra estudar cinema, mas trabalhei em um montão de lugar pra poder sobreviver. 


- E como chegou o lance musical pra você nos EUA?
- Cheguei até a gravar uma bossa nova por lá, mas o que me influenciou foi a música de suingue, a música negra norteamericana. Só que aprendi a fazer muitas coisas erradas também, e em 1964 fui preso por porte de drogas, roubo e fui deportado para o Brasil, só que chegando aqui acabei me metendo em confusão também. Fiquei oito meses em cana, mas aí saí do xadrez e comecei a tentar mudar de vida. 


- Foi mais ou menos quando você reencontrou seus amigos de juventude, Roberto e Erasmo?
- Era aquela onda da Jovem Guarda, lembra? Não sei nem se você era nascido... fui pra São Paulo tentar falar com eles, soube que já estavam sendo um enorme sucesso com o programa na Record. Quase nem acreditei quando vi Roberto sair, aquele sucesso, as meninas querendo agarrá-lo, pensei "aqueles meninos que eu ensinei coisa pra caramba", pensei também quanto tempo eu tinha perdido nos EUA, cara.. Mas também, quem ia querer contratar um cara que nem eu pra cantar no programa Jovem Guarda? Eu não era um galã como Ronnie Von, por exemplo. Então fui atrás do Roberto e consegui entrar no prédio onde ele morava para implorar uma chance no programa. Me enfiaram numas roupinhas de playboy, e em 1968 finalmente tive minha chance de cantar no programa e lancei um compacto. Compus "Não Vou Ficar", Roberto gravou mas ainda não tinha alcançado o sucesso que eu queria. Voltei pro Rio de Janeiro e o cantor Fábio me deu a maior força, cara, fui morar com ele, até o fim da vida ele foi meu amigo. É ele que fez aquelas vinhetas de futebol para a Rádio Globo "Flamengoooooo" (imita a vinheta com seu vozeirão). Foi na casa do Fábio que eu fiz "Azul da Cor do Mar" vendo um quadro de uma mulher de biquini na praia perto de uma onda no mar na sala dele. 


- Mas aí teve o sucesso de "Primavera".
- (cantarola) "Quando o inverno chegar..." - uma balada muito legal. O Fábio adorou quando mostrei "Azul" pra ele, mas em 1969 lancei "Primavera" e comecei a ter sucesso aí. Até meus últimos shows eu cantava essa música que a galera gostou muito. Um tremendo sucesso. "Hoje o céu está tão lindo..." (cantarola novamente)


- E o produtor musical Nelson Motta também te ouviu.
- Agradei aos ouvidos do Nelsinho, ele me apresentou a Elis Regina, comecei a gravar nessa época. Fiz várias músicas, "Réu Confesso", só que eu nunca deixei de arrumar confusão, e isso atrapalhou minha carreira demais. Briguei nas gravadoras, briguei com muitos caras, executivos de gravadoras. Eu até achava que na época eu teria que chegar nas gravadoras com um 45 na cinta, com um rottweiller e um dobermann para perguntar "posso gravar?" (risos). Mas eu brigava com os amigos também e depois tentava fazer as pazes "eu bem que te avisei, pra não levar a sérioooo...!" (cantarola e ri)


- Você teve seu repertório calcado mais na música negra americana?
- Sim, o soul, o funk, mas minhas baladas românticas refletiam muito o que eu passei na vida, dor de cotovelo, dor de corno, romances, paixões, abandono e solidão, era só "me dar motivooo...!" (cantarola).


- E sua vida pessoal, Tim? Casamento, como era sua vida familiar?
- Bem, sempre fui muito ligado na minha família, meus pais, irmãs, sobrinhos, filhos, netos, apesar desse meu jeito "Tim Maia". Eu me apaixonei pela Geisa, que já estava grávida e mãe solteira do Léo, aí com ela tive mais um filho, irmão dele. Eu também sempre gostei e respeitei muito as crianças, cara, fossem ou não da minha família.


- Foi nessa fase também que você entrou na seita "Universo em Desencanto"?
- Sim, pois acho que quase todo mundo tem sua fase mística, né bicho? Eu gostava de Ufologia, vida extraplanetária, etc., e me interessei pela proposta. Mas depois fui descobrindo que não tinha nada a ver, não era bem o que eu queria, uma roubada. 


- E como é que você saiu dessa "roubada"?
- Comprei e li os livros, comprei pra cada um da família também pois o que era estranho é que segundo a seita você não podia emprestá-los, e tinha uma série imensa, lançaram praticamente uma enciclopédia do Universo em Desencanto, mais de mil livros. Me desencantei! Larguei quase tudo por causa da seita. Fiz até dois discos com o nome de "Racional" que era a síntese da seita. Mas depois no fim dessa fase voltei com tudo.


- Falando em sua família, não dá pra deixar de citar o nome do seu sobrinho, Ed Motta, talvez seu sucessor.
- Ah, o garoto é muito bom, uma das melhores vozes do Brasil, mas pode até ser considerado meu sucessor - espero que só no estilo musical, não sou exemplo de vida pra ninguém (risos) - mas lamento não ter ajudado muito na carreira dele, embora ele nem precisou, conseguiu tudo pelos próprios méritos, seu talento enorme. Mas o estilo do Ed tende mais para o rock. 


- Foi depois da fase "Desencantada" que você se separou?
- Sim, eu voltei a me drogar direto e nas gravadoras ninguém queria nada com o "Racional", aí tive que mudar, voltar pra escala zero, e lancei "Rodésia", uma música que fala de "apartheid". Apareceram outros sucessos como "Acende o Farol", "Sossego" e muitos outros. Renasci. Depois fundei a Vitória Régia, minha gravadora.


- Você foi um dos pioneiros no Brasil a ter sua gravadora independente.
- É que eu já estava cansado de brigar com todo mundo em todas as gravadoras, aí tinha uma rua na Lagoa com o nome Vitória Régia onde era meu estúdio e resolvi batizá-lo assim. Na minha própria gravadora não precisava brigar com muita gente, só comigo mesmo.


- Foi fazendo esse estúdio que você realizou seu velho sonho de gravar com o grupo vocal "Os Cariocas"?
- Sim, eu os admirava demais, eu também sou carioca, da Tijuca, mas não foi só por isso, era minha admiração pelo grupo mesmo.


- Parece que você quase previa que estava muito mal de saúde e podia ter um problema assim, de uma hora para outra, Tim?
- A gente sabe como começar a carreira, luta muito para isso, só não sabe direito como terminar. Eu cheguei a pensar que meus excessos, dos quais não conseguia me livrar, estavam tentando me levar para o fim.


- Falando de seu último show em Niterói, naquele teatro magnífico, em 1998.
- (Tim fala pausado, olhando para o infinito) É, bicho... (dá uma longa pausa, passa a mão pelo rosto) Eu estava animado pelo show, tinha convidado muitos parentes e amigos, e escondi de todos que não estava me sentindo bem. Aliás, tentei esconder, não dava, perceberam que eu estava mal. Teve gente que me aconselhou a desistir do show. Tentei, fui ao palco mas não resisti e nem consegui começar direito a cantar a primeira. Todo mundo estranhou achando que estava doidão. É, meu irmão... (Tim dá outra longa pausa, dessa vez me encarando) a estada é longa, mas o tempo sempre é curto. (Muda rapidamente, num tom mais feliz e conformado) Mas, nessa vida vale tudo né? Ou quase. 

Tim se levanta, toma o resto do whisky no gargalo mesmo - é a sua saideira - e me dá um abraço, me deseja sucesso, saúde, fala umas palavras carinhosas. Diz depois que tem que ir naquela hora. Não consigo falar mais nada, fiquei exatamente como naquele dia em que o vi "in persona" no bar, anos atrás, e Tim já deu vários passos paquidérmicos quando lembro de um grande sucesso e grito pra ele, adaptando a letra ao momento:


- Nem sei por que você se foi, quantas saudades nós sentimos...
E ele completa, lá de longe, com seu trovão afinado:
- E aquele adeus não pude dar
Gostávamos tanto de você, Tim....

ENTREVISTA, GRANDES NOMES, MPB, MUSICA, TIM MAIA

terça 08 dezembro 2009 20:47 , em GRANDES NOMES



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