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O
SILENCIO DESCE SOBRE CACILDA
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Publicado na Folha de S.
Paulo, domingo, 15 de junho de 1969
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Neste texto foi mantida a
grafia original
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Cacilda
Becker faleceu ontem, às 10 horas, no Hospital São
Luís onde estava internada há 38 dias, precisamente
desde 6 de maio, quando fora acometida por um derrame cerebral num
dos intervalos de peça "Esperando Godot", na qual fazia o
papel principal. A noticia de sua morte provocou intensa
comoção nos meios teatrais de todo o país e
manifestações de pesar do governador Abreu
Sodré e do prefeito Paulo Maluf. O corpo de Cacilda Becker -
que nasceu em Piraçununga, há 48 anos - está
sendo velado na capela dos dominicanos, para onde foi levado
às 14 horas. Seu sepultamento será realizado hoje,
às 11 horas, no Cemiterio do Araçá.
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| Uma vida para o
teatro |
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Zimba, nós vamos ter um trabalho infernal.
Era assim que Cacilda Becker dizia para Zienbisnky, sempre que se
iniciavam os ensaios de uma peça. Zimba era o tratamento
afetuoso para o ator e diretor, que a ajudou a se tornar a primeira
atriz do teatro brasileiro.
— Ela dizia que teriamos um trabalho infernal mas dizia com
um brilho de alegria nos olhos. Sempre teve um fogo sagrado ardendo
dentro daquele corpo fragil, uma paixão mistica pelo
teatro.
A vida de Cacilda Becker foi a historia de uma vontade apoiada em
nervos e coragem e inteligencia. Sua carreira se confunde com a
propria evolução do teatro moderno brasileiro, que
ela enriqueceu com seu talento de atriz no impecavel desempenho de
papeis dificeis e na encenação de algumas das obras
da dramaturgia contemporanea.
Uma mulher pertinaz, que levou ao palco a romantica Marguerite
Gauthier, a "Dama das Camelias", a toxicomana Mary, de "Longa
Jornada Noite a Dentro", a neurotica Marta, de "Quem tem medo de
Virginia Woolf", ela foi brutalmente surpreendida entre um ato e
outro, no dia 6 de maio, de "Esperando Godot", na qual representava
Estragon, ao sofrer um derrame cerebral.
Paulista de Piraçununga, Cacilda Becker nasceu em 1921.
Cedo, conheceu a pobreza que não deveria abandoná-la
durante anos. Ela e as irmãs Cleide e Dirce ficaram com a
mãe quando os pais se separaram. Juntas, vieram para Santos,
onde a vida era dificil. Mesmo assim, Cacilda conseguiu fazer os
estudos de ballet, sua primeira vocação artistica.
Antes do teatro, um diploma de professora e, em São Paulo, o
emprego de escrituraria numa firma de seguros.
Com 20 anos, vai para o Rio disposta a iniciar a carreira de atriz.
Supera as dificuldades, domina a propria fragilidade e conquista
uma oportunidade no teatro, que só deixaria atingida pela
adversidade. Do palco Cacilda só sairia, anos mais tarde,
carregada de maca, para o hospital.
Cacilda Becker começa a afirmar-se como atriz em 1941, na
companhia de Raul Roulien. Ela, Raul e Laura Suarez interpretam
"Trio em Lá Menor", de Raimundo Magalhães Jr. Antes,
por parte do elenco do Teatro do Estudante, na montagem de Hamlet,
dirigida por Paschoal Carlos Magno.
Quando o teatro paulista começa a pretender
profissionalizar-se, Cacilda Becker regressa a São Paulo em
1943 e integra-se no Grupo Universitário de Teatro, fundado
por Decio de Almeida Prado.
Faz rádio-teatro para sobreviver mas é ao palco que
ela entrega a força de sua excepcional capacidade de
trabalho e sua viva inteligencia. No GTU participa de três
montagens: "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente;
"Irmãos das Almas", de Martins Pena e "Pequeno
Serviço em Casa de Casal", de Mario Neme. Regressa ainda ao
Rio para trabalhar com "Os Comediantes", grupo responsavel por uma
verdadeira revolução no panorama teatral brasileiro.
Com eles, dirigida por Zienbisnky, que a conhecia desde 1943,
participa da remontagem da peça "O Vestido de Noiva", em
1946, no papel de Lucia, ao lado de Olga Navarro e Maria Della
Costa.
Zienbisnky evoca o entusiasmo de Cacilda:
"Lembro-me dela, uma moça que não comia, tinha a
fragilidade de uma flor de estufa. Alimentava-se com um ovo cru e
um pedaço de carne. Chegou a pesar 42 quilos. Ela nos
preocupava. A Cacilda Becker que todos conheceram nos ultimos anos
era robusta perto daquela mocinha que conheci. Mas ela tinha a
dedicação mais absoluta ao teatro, ao fenomeno de
teatro, ao amor do teatro." |
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