Sem nome  (GRANDES NOMES) escrito em segunda 30 julho 2007 17:46

atriz, teatro

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O SILENCIO DESCE SOBRE CACILDA


Publicado na Folha de S. Paulo, domingo, 15 de junho de 1969

Neste texto foi mantida a grafia original


Cacilda Becker faleceu ontem, às 10 horas, no Hospital São Luís onde estava internada há 38 dias, precisamente desde 6 de maio, quando fora acometida por um derrame cerebral num dos intervalos de peça "Esperando Godot", na qual fazia o papel principal. A noticia de sua morte provocou intensa comoção nos meios teatrais de todo o país e manifestações de pesar do governador Abreu Sodré e do prefeito Paulo Maluf. O corpo de Cacilda Becker - que nasceu em Piraçununga, há 48 anos - está sendo velado na capela dos dominicanos, para onde foi levado às 14 horas. Seu sepultamento será realizado hoje, às 11 horas, no Cemiterio do Araçá.

Uma vida para o teatro

— Zimba, nós vamos ter um trabalho infernal.
Era assim que Cacilda Becker dizia para Zienbisnky, sempre que se iniciavam os ensaios de uma peça. Zimba era o tratamento afetuoso para o ator e diretor, que a ajudou a se tornar a primeira atriz do teatro brasileiro.
— Ela dizia que teriamos um trabalho infernal mas dizia com um brilho de alegria nos olhos. Sempre teve um fogo sagrado ardendo dentro daquele corpo fragil, uma paixão mistica pelo teatro.
A vida de Cacilda Becker foi a historia de uma vontade apoiada em nervos e coragem e inteligencia. Sua carreira se confunde com a propria evolução do teatro moderno brasileiro, que ela enriqueceu com seu talento de atriz no impecavel desempenho de papeis dificeis e na encenação de algumas das obras da dramaturgia contemporanea.
Uma mulher pertinaz, que levou ao palco a romantica Marguerite Gauthier, a "Dama das Camelias", a toxicomana Mary, de "Longa Jornada Noite a Dentro", a neurotica Marta, de "Quem tem medo de Virginia Woolf", ela foi brutalmente surpreendida entre um ato e outro, no dia 6 de maio, de "Esperando Godot", na qual representava Estragon, ao sofrer um derrame cerebral.
Paulista de Piraçununga, Cacilda Becker nasceu em 1921. Cedo, conheceu a pobreza que não deveria abandoná-la durante anos. Ela e as irmãs Cleide e Dirce ficaram com a mãe quando os pais se separaram. Juntas, vieram para Santos, onde a vida era dificil. Mesmo assim, Cacilda conseguiu fazer os estudos de ballet, sua primeira vocação artistica. Antes do teatro, um diploma de professora e, em São Paulo, o emprego de escrituraria numa firma de seguros.
Com 20 anos, vai para o Rio disposta a iniciar a carreira de atriz. Supera as dificuldades, domina a propria fragilidade e conquista uma oportunidade no teatro, que só deixaria atingida pela adversidade. Do palco Cacilda só sairia, anos mais tarde, carregada de maca, para o hospital.
Cacilda Becker começa a afirmar-se como atriz em 1941, na companhia de Raul Roulien. Ela, Raul e Laura Suarez interpretam "Trio em Lá Menor", de Raimundo Magalhães Jr. Antes, por parte do elenco do Teatro do Estudante, na montagem de Hamlet, dirigida por Paschoal Carlos Magno.
Quando o teatro paulista começa a pretender profissionalizar-se, Cacilda Becker regressa a São Paulo em 1943 e integra-se no Grupo Universitário de Teatro, fundado por Decio de Almeida Prado.
Faz rádio-teatro para sobreviver mas é ao palco que ela entrega a força de sua excepcional capacidade de trabalho e sua viva inteligencia. No GTU participa de três montagens: "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente; "Irmãos das Almas", de Martins Pena e "Pequeno Serviço em Casa de Casal", de Mario Neme. Regressa ainda ao Rio para trabalhar com "Os Comediantes", grupo responsavel por uma verdadeira revolução no panorama teatral brasileiro. Com eles, dirigida por Zienbisnky, que a conhecia desde 1943, participa da remontagem da peça "O Vestido de Noiva", em 1946, no papel de Lucia, ao lado de Olga Navarro e Maria Della Costa.
Zienbisnky evoca o entusiasmo de Cacilda:
"Lembro-me dela, uma moça que não comia, tinha a fragilidade de uma flor de estufa. Alimentava-se com um ovo cru e um pedaço de carne. Chegou a pesar 42 quilos. Ela nos preocupava. A Cacilda Becker que todos conheceram nos ultimos anos era robusta perto daquela mocinha que conheci. Mas ela tinha a dedicação mais absoluta ao teatro, ao fenomeno de teatro, ao amor do teatro."

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Todos os comentários desse artigo:
Sem nome

  • karol

    Seg 30 Jul 2007 21:25

    uau!gostei do novo visual do seu blog...ficou bm legal msm...
    parabéns e sucesso...
    abraços!!!