Um censor do regime militar foi ao Teatro Brasileiro de Comédia, em São Paulo, proibir algumas canções do show Tempo de guerra, com Maria Bethânia. Plínio Marcos, assistente de direção, desacatou o homem e uma tropa de oficiais queria levá-lo preso. A rua do teatro virou uma praça de guerra. A classe teatral inteira foi tentar impedir a prisão, mas nada parecia adiantar. De repente, silêncio absoluto. Um corredor se abriu no meio da multidão: era Cacilda Becker que acabava de chegar. Quando se aproximou do camburão onde estava Plínio, disse: "Solte este homem!" Como se estivesse diante do papa, sem pestanejar, o guarda atendeu à ordem. Cacilda continuou: "Amanhã nós iremos até a delegacia esclarecer o que aconteceu aqui e o senhor, por favor, esteja lá!" E o guarda: "Sim, senhora, a gente explica direitinho."
Foi por essas e outras que, depois de sua morte, em 1969, os amigos ficaram ao deus-dará. Cacilda Becker Yáconis (paulista de Pirassununga, nascida em 6 de abril de 1921) era a "mãe" da classe teatral, aquela que protegia os colegas das arbitrariedades do regime militar contra a liberdade de expressão. Mas foi, principalmente, uma das atrizes mais brilhantes do teatro brasileiro. Em 30 anos de carreira, encenou 68 peças, onde fez interpretações apaixonadas que poucos dizem ter visto igual. Teve uma rápida passagem pela companhia Os comediantes, de Ziembinski, e logo depois foi para o Teatro Brasileiro de Comédio, o TBC, onde ficou dez anos. Saiu em 1958 para montar sua própria companhia, Teatro Cacilda Becker, que dirigiu até o final da vida.
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