
ÉPOCA
- Como é, para você, uma mulher que foi muito bonita na
juventude, chegar aos 80 anos?
Tônia Carrero - É estranho. Quando fiz 70, achava
que aos 80 seria frágil, que as pessoas iam me olhar na rua e dizer
(faz uma voz esganiçada): 'Olha aquela velhota tão fraquinha,
coitadinha dela!' Passo longe disso, mas é claro que sinto
diferença. Só tento fazer com que os outros não percebam. Não saio
mais com as pernas ou os braços de fora, escondo as partes que
entregam minha idade. Meu ritmo está mais lento para tudo, sinto
mais dificuldade para levantar de uma cadeira, para lembrar de
nomes. E olhar no espelho é uma tristeza. Quando fiz 60 anos,
sofria muito ao lembrar como eu era e ver, em minha imagem
refletida, que não estava mais tão bonita. Era muito sofrimento.
Com o tempo, fui me acostumando. A gente se acostuma a tudo,
né?
ÉPOCA - O que muda no amor?
Tônia - Ah, muda muito. Sinto uma falta danada de
me entusiasmar por um homem, de me apaixonar.
ÉPOCA - Tem namorado?
Tônia - Não, estou sozinha. Não me sinto
solitária, mas acho chato não ser mais desejada pelos homens.
Lembro com saudade do tempo em que me arrumava porque sabia que me
achariam bonita. O fato de nenhum homem me achar atraente a esta
altura da vida é muito duro. Tenho a sensação de que, por causa
disso, meu charme diminui loucamente.
ÉPOCA - Essa sensação se estende ao palco?
Tônia - Não, no palco é muito diferente. É
maravilhoso, a gente consegue rejuvenescer. Quando estava com 60
anos, Sarah Bernhardt foi interpretar Joana D'Arc no teatro. A
personagem tinha 16 anos, e todos achavam aquilo ridículo. Na cena
em que Joana D'Arc é julgada, um homem pergunta a ela: 'Quantos
anos você tem, minha jovem?' E ela respondeu: 'Dezesseis anos'.
Falou aquilo com tanta convicção que a platéia inteira explodiu em
aplausos (fica com a voz embargada). Ela sabia que podia
interpretar uma garota aos 60 anos. Eu, aos 80, sei que posso fazer
uma personagem de 60 anos em A Visita da Velha Senhora. Passo muito
bem por uma mulher 20 anos mais jovem. Mas a melhor coisa de ficar
velha é que hoje estou acima do bem e do mal: digo o que bem
entendo, não tenho medo.
ÉPOCA - O que, por exemplo, você pode dizer agora
que não diria antes?
Tônia - Hoje consigo falar sobre meus amores.
Posso dizer que tive um caso com Rubem Braga (o escritor) e outro
com Paulo Autran (o ator), enquanto era casada com Carlos Thiré. E
sei que agora isso não abala em nada minha respeitabilidade.
Coitado, o Thiré foi bem corneadinho... Mas o que ele fez comigo
não foi brincadeira. Às vezes, chegava em casa e dizia: 'Sabe
aquela sua amiga? Ontem saí com ela'. As amantes dele iam lá em
casa, eu sabia de tudo.ÉPOCA - Como foi sua paixão
por Paulo Autran?
Tônia - Fulminante. Conheci Paulo e me apaixonei
completamente por ele (os dois estrearam juntos no teatro em 1949,
na peça Um Deus Dormiu lá em Casa). Meu filho Cecil (Thiré, hoje
ator) era tão pequenininho... Achava Paulo um talento para o
teatro, mas inventei de fazer uma peça com ele também porque queria
uma desculpa para ficar perto. Eu disse: 'Se não for com ele, não
faço'. Paulo era advogado e não queria largar a profissão. Só para
me testar, pediu um salário absurdo. E eu dei. Deixei de receber
meu salário só para ficar perto dele. Eu não ganhava um tostão. Com
o tempo, a paixão foi acabando.
ÉPOCA - Você fala muito das mudanças vindas com o
tempo. Mas, hoje, se sente bem?
Tônia - Muito bem. Melhor do que eu achava que
estaria a esta altura. Eu me sinto mais inteligente, mais calma,
lúcida e bem-disposta. Consigo até encostar as mãos no chão sem
dobrar as pernas, olha só (levanta-se e mostra o corpo alongado). O
que me entristece mais é perder amigos, vê-los partir. Meu truque
agora tem sido arrumar amigos mais novos que eu, cercar-me de
pessoas jovens.
ÉPOCA
- Você tem algum problema de saúde?
Tônia - Não é exatamente um problema, mas tenho um
dreno na cabeça. Há quatro anos caí da escada da minha casa e bati
a cabeça na parede. Não aconteceu nada, mas dois anos mais tarde
comecei a ficar com dificuldade para caminhar e descobri que estava
com hidrocefalia (excesso de líquido no cérebro). Fiz uma pequena
cirurgia e botei um dreno debaixo do couro cabeludo. Não vejo e não
sinto nada. É como se tivesse um ladrão na minha
caixa-d'água.
ÉPOCA - Quantas plásticas já fez?
Tônia - Fiz três no corpo: uma na barriga, outra
na coxa e uma terceira nos seios. Todas com Pitanguy. Depois fiz
mais duas no rosto. Agora faço só 'manutenções' periódicas, com
aplicações de Botox. Aconselho qualquer mulher que tenha dinheiro a
fazer plástica. Sou a favor. Nossa imagem física tem um efeito
enorme sobre a imagem mental. É bom saber que, mesmo depois de
velha, é possível andar um pouquinho para trás no tempo.
ÉPOCA - Gosta de assistir a programas na TV?
Tônia - Gosto de ver o trabalho dos meus
companheiros. Mas tem uma coisa que me incomoda. José Wilker e
Antônio Fagundes, por exemplo, são atores sensacionais. Aí empurram
para eles uns papéis que não estão à altura do talento. Eles não
podem fazer essas porcarias! Mas ganham tanto dinheiro que vale a
pena. E eu também toparia, se ganhasse aqueles R$ 100 mil, R$ 150
mil. Minha vida seria muito melhor. O problema de trabalhar em
televisão é que as pessoas começam a fazer coisas pelo dinheiro. É
um conforto trabalhar num lugar que paga muito bem. Mas os que
estão começando ganham uma vergonha, quase nada. Trabalham demais e
vivem um regime de fome. A televisão hoje é dirigida pelo dinheiro.
Paulo Autran sempre diz que o cinema é do diretor, o teatro é do
ator e a TV é do patrocinador. Quem paga manda.
ÉPOCA
- Você acha que a televisão está apelativa?
Tônia - Ah, essa coisa de pouca roupa, de mulher
dançando, isso não me incomoda nada. Acho até engraçado. Não
acredito que seja nocivo para a mocidade. Falar palavrão, mostrar a
bunda... Tudo bem, para mim. Essas coisas são tão superficiais que
não afetam ninguém. Aquilo de dançar na boquinha da garrafa
horrorizou todo mundo, e hoje ninguém lembra. Esse negócio de pais
ficarem proibindo crianças de ver TV não funciona. Deixem ver
tudo!
ÉPOCA - Você já declarou sua admiração por
Fernando Henrique Cardoso. No entanto, a classe artística reclamou
muito das duas últimas administrações no que se refere à cultura,
principalmente ao teatro.
Tônia - Acho essas reclamações uma injustiça. Num
país onde não sobra dinheiro para educação e saúde, é preciso ter
prioridades. O governo vai dar dinheiro para a cultura quando não
tem suficiente para fazer escolas e hospitais? Não pode. Fernando
Henrique se preocupou muito com essas duas coisas, e já acho isso
um avanço. Fui ao presidente pedir dinheiro para montar minha peça,
mas grande parte das verbas veio da iniciativa privada.
ÉPOCA - Mas, se o teatro fica na mão das empresas,
não acaba virando uma arte do patrocinador, como você disse que
acontece com a televisão?
Tônia - Não vira, não. Quem tem de dar dinheiro
para a cultura são as empresas particulares. O dono do supermercado
tem de investir em teatro. E isso não altera nosso trabalho. Ainda
somos nós que escolhemos os textos, os elencos, e depois vamos
procurar verbas. Quem não pode ir a Fernando Henrique, como eu fiz,
pode ir à Caixa Econômica, ao Itaú, ao Banco do Brasil... Está
cheio de empresa querendo patrocinar cultura.
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT396319-1666-1,00.html
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